Em Língua Portuguesa não existe homicídio doloso

28/04/2017

Crédito das fotos: beamahan via Foter.com / CC BY-NC-ND
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O caso aconteceu há muito anos. Eu havia assumido fazia pouco uma posição de liderança, umas das primeiras da minha carreira.

Certo dia, recebi um bilhete do superior que me contratara pedindo a cabeça de um profissional da minha equipe. E explicava: "...os erros recorrentes, como o que por desatenção chegou a ser publicado na edição de hoje, expõe uma deficiência de texto...".

O texto, de fato, não era a melhor qualidade daquele repórter. Ele tinha, porém, um faro para a notícia como poucos que eu conhecera até então, ou conheceria nos anos seguintes.

Com o bilhete em mãos, fui bater à sala do chefe. Expus os pontos positivos do repórter, ele ouviu e concordou, mas voltou à questão dos erros.

Eu então argumentei que, dos erros, ninguém estava livre. E entreguei o bilhete que recebera do chefe, onde havia pintado com uma caneta marca-texto duas palavras:

"...os erros recorrentes (...) expõe uma..."

Houve um momento de silêncio de uns 10 segundos, talvez menos, em que pensei que o demitido seria eu. Finalmente, o chefe reagiu:

- O que você quer insinuar com isso? Foi uma desatenção...

- Esse é o ponto, chefe: em Língua Portuguesa não existe homicídio doloso.

Outro curto silêncio, antes que o chefe caísse na gargalhada e eu pudesse explicar que falava sério: ninguém comete erros num texto com intenção.

Quem erra ao escrever o faz por não saber que está errando.

Meu argumento convenceu e ganhei um prazo para "consertar" o repórter assassino da gramática. Eu conversei com ele, elogiei as qualidades que demonstrava e expus as deficiências. E ele reagiu bem. Esforçou-se para corrigir os erros mais comuns e ganhou novo ânimo para perseguir furos de reportagem.

O chefe trabalhou comigo em outras ocasiões e figura entre os melhores que tive. O texto do repórter não virou um primor, mas melhorou. De sofrível, para razoável. A gana pela notícia, porém, lhe garantiu uma carreira exitosa.

E eu adotei a figura do homicídio doloso. Passei a usá-la sempre que precisava aconselhar, a novos colegas de profissão, a companhia de uma gramática debaixo do travesseiro.

Texto: Ferdinando Casagrande  Edição: EditorExpress

Crédito das fotos: beamahan via Foter.com / CC BY-NC-ND
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